segunda-feira, 6 de maio de 2013

Borges e eu


por Jorge Luis Borges

Ao outro, a Borges, é que as coisas acontecem. Caminho por Buenos Aires e paro, talvez quase mecanicamente, para apreciar o arco de um saguão e a cancela; sei de Borges pela correspondência e vejo seu nome em uma lista de professores ou em um dicionário biográfico.

Gosto de relógios de areia, dos mapas, da tipografia do século XVIII, das etimologias, do gosto do café e da prosa de Stevenson; o outro compartilha destas preferências, mas de um jeito vaidos o que as converte em atributos de um ator.

Seria um exagero afirmar que nossa relação seja hostil; vivo, e me deixo viver, para que Borges teça sua literatura e esta literatura me justifica. Não me custa nada confessar que ele produziu algumas páginas aceitáveis, mas estas páginas não podem me salvar, porque o que é bom já não pertence mais a ninguém, nem sequer ao outro, mas sim à linguagem ou à tradição.

Ademais, estou destinado a me perder, definitivamente, e só algum instante de mim poderá sobreviver no outro. Pouco a pouco, cedo tudo a ele, embora saiba de seu perverso hábito de falsificar e aumentar.  Spinoza entendeu que todas as coisas querem persistir sendo o que são; a pedra quer ser eternamente uma pedra e o tigre um tigre.

Permanecerei em Borges, não em mim (se é que eu sou alguém), mas me reconheço menos em seus livros do que em muitos outros ou na habilidosa batida de um violão.

Há muitos anos tentei livrar-me dele e passei das mitologias dos subúrbios aos jogos com o tempo e o infinito, mas estes jogos pertencem a Borges agora e tenho que inventar outras coisas. Desta forma, minha vida é uma fuga e perco tudo, e tudo pertence ao esquecimento, ou ao outro.

Não sei qual dos dois escreve esta página.
[copiado daqui: http://ofielcarteiro.net/mergulhe-nos-textos/borges-e-eu-de-jorge-luis-borges/]