quarta-feira, 30 de junho de 2010

Anatomias Flamencas (Halina Doria)

Anatomia do erro
Por um momento estava eu a deriva no mundo, com dois pés esquerdos, calçados por sapatos do pé direito. Tinha um braço humano; o outro, um hélitro de besouro. O silêncio dizia: é indesejável. Sem dúvida.
Estava errado o sapateado, ele disse, eu já sabia. Ainda não decidi se a consciência do erro é boa. Quem nada pode não se deforma, pouco constrangimento passa. Continua a vida como se não cometesse faltas ignorando constrangimentos, como uma pessoa leve, vivendo a facilidade da alegria.
Mas não sou assim.
Dia de segunda feira, oito horas da noite, uma jornada estafante tinha passado, porém dançar sempre me libertava. Encabulo-me ao ouvir os comentários, mas sei da predileção do professor por mim. Gosto, obviamente, mas sempre inquieta a cobrança de me destacar. Não importa o dia, meu espírito ou disposição, preciso justificar meu lugar. Cada falha anula toda uma coreografia, desfigura e me violenta.
Especificamente esse dia, surpreendi-me na linha da frente constrangida e enrolada. Algo quizilava nos meus pés, eles não pareciam concordar entre si. Subitamente percebi que aqueles dois pés esquerdos irrompiam novamente, sempre vinham em horas inoportunas! Atrapalha essa imprevisibilidade. Era distrair-me, acreditar que tudo estava sob controle.
Já não era raro, sempre que podiam eles tiranizavam meu corpo e subjugavam meu físico. Passava por situações mais do que constrangedoras, a de uma dançarina com treze anos de experiência ter pés com poder deliberativo.
O pior não passara, perfuraria meu ego em poucos segundos, o julgamento alheio. O sapateado tinha sido um grito no silêncio absoluto do além morte. Todos ouviram e se prestaram à crítica. Eram pés que não afinavam entre si.
Incômodo. Experimentei o dedão raspando a parte interna do sapato. Dois dedões esquerdos dentro de sapatos de pé direito incomodavam. Eu não sabia se trocava os sapatos ou os pés.
Realmente, eu tinha dois pés esquerdos incomodados. O pensamento me escapava, será que minha unha encravou? Entretanto, nesse entrevero particular divisei meus braços. Estavam mudados,
De maneira alguma podia ser considerado errado, consistia numa variação possível eu repliquei. Era errado na realidade dele, mas mesmo assim o Mundo exerceu devida jurisdição. Ele sentenciou de maneira tal a não tirar créditos de ninguém, eu deveria ter um braço humano e outro um hélitro, não era um braço errado, era um membro incomum.
Sem movimentos, o hélitro não permitia grandes ações. Ele fechava o lado direito do meu corpo e o revelava quando levantado. Não era de todo desagradável, apresentava uma viva cor vermelha com ornamentação de algumas rosas brancas vistosas. Era um complemento bonito e tinha certo charme, mas todos condesciam junto ao coreógrafo: era errado.
A obrigação do certo e a culpa do erro delinearam-se desde muito cedo em minha vida. A ofensa ao verdadeiro ultrapassa o abstrato, o erro me agiganta grotescamente. Senti-me pouco a pouco aumentando, como uma Abaporu. Pressenti a vertigem, à beira de mim o abismo.
Para lá que fui.
Sofri lobotomia aguda e temporária. Nada flutuava dentro da minha caixa craniana, era um vazio sem impressões. Expiei de pé. Não senti a movimentação do tempo, ele derretia-se em si e retornava ao início derradeiro, segundos de estranhamento ou uma vida toda sem julgamentos.
Sinto que talvez no processo de realocação dos meus neurônios passei por reinos ímpares, jantei com Afrodite e me doei a Dionísio, fiz juras ébrias aos deuses já esquecidos. Dizem que quando da suspensão do tempo todo o universo passa por nossas entranhas. Trespassada por touros e estrelas, absorvendo luzes fugazes me senti fisgar novamente pelo trivial rearranjo do intelecto.
Subitamente voltei.
Afixado meu cérebro no lugar, compreendi-me humana e ordinária novamente. Já haviam se esquecido de mim, e como proteção ao meu próprio corpo deixei-o livre na música. Tudo entoava o mesmo compasso, sapateava em uníssono, minhas saias voavam honestamente.
Penso que de tantas coisas não vistas que redundaram na Terra e tantas surpresas realistas, que o dançar paira além de mim, sente e sofre com todo o universo. O acontecer tão valorizado, figura como um verbo intransitivo num multiverso movediço.

Anatomia da paixão
Quando danço nego meu existir no mundo, renasço e fundo-me aos gitanos, andaluces e mouros. Não há limites definíveis entre minha cintura e a saia, meus pés e o tacón. Sinto indescritível, o flamenco tomar posse dos meus nervos.
O palco é uma abstração, estamos todos esquecidos e unidos uns aos outros amando-nos no ritmo perfeito de nossos pés. O pensar que raramente me abandona é eclipsado, um obscurecer delicioso do conhecimento incide na minha alma. Sou apenas corpo e sentimento.
Esqueço meu nome e nego o passado, paixão é abdicar de si pelo objeto amado.
Yo no puedo cantar, pero sé cómo orar.
Assim eles permitem que os ouça chorarem pelo passar dos bons tempos, o cante de las minas sou eu, todos os gitanos gritam e guiam meu corpo. O cantaor traduz as privações dolorosas da alma, as palmas ressoam marcando o compasso. A vida parece fugir a cada instante e a tristeza é festejada para passarmos cada vez mais leves nessa existência sem recompensas.
Meus lábios carmesim articulam, meus olhos marejados e o sorriso denunciam: Yo me doy el lujo de volar como los niños sueñan com los primeros besos.
O bater do coração amalgama-se ao taranto, igualmente a força de cada passo é traduzida no ofegar da respiração e no balanço lascivo das ancas. Assumo posturas dignas de serem fundidas em bronze a cada suspensão do baile, e quando do restabelecimento dos movimentos a intempestividade dos gestos dá cor a melancolia e os braços altos para o céu confidenciam a crença do povo. Então apanho a saia ao quadril e finalizo a escovilla com elegância, embriagada em meu êxito sinto o baile todo vibrar. Não deixávamos o ar com ecos de abandono, ele era um concebido maciço de guerra, amores carnais e devoção.
El Duende que de mim se assenhora transpira por todos meus poros, é o momento da pureza, do limite entre a loucura e o êxtase. Não permita que nenhum bailaor passe sem o encontrá-lo!
Para vivir el Flamenco és necesario morir y volver.
A mudança do palo expõe a instabilidade do momento. A necessidade de perder-se para novamente alcançar-se antes de cair profunda no mundo. Reencontrar-se a cada instante na cegueira que fé impõe.
Insurjo em Sevilla e embriagada grito: A ti Sevilla! Me lleve donde tú quieres.
O vestido rigoroso aos meus contornos, a flor presa ao cabelo, as costas e braços nus refletindo a lua sobre minha pele. Estou inteira à procura daquele que aceite minha alma, desejo firmemente ser subtraída de tudo supérfulo. Com fogo no olhar ele acerca-se de mim.
Sorrindo enlevada pela paixão desprendo- me mais uma vez da vida, niña sevillana.
Levada pelo ruído de uma sintonia dissonante de vozes, risos e niños del pueblo o som das castanholas que assinalam o tempo ainda se distinguia e assim abandono-me no centro da tenda. Lá o encontro dos corpos que não se tocam, mas dissolvem e confundem-se entre si. Fascinados, tendo numa alma o prolongamento da outra.
A dança é corte voluptosa, olhos que nunca se perdem e olhares que jamais escapam. Então o curto separar que descontinua o querer; girar de olhos fechados, afirma ser nulo o mundo ao redor. A solidão aos enamorados de Sevilla se faz.
A cada passada a aproximação que provoca; o curvar de seu corpo sobre o meu, minhas costas reclinam para esquivar-se. Porém, quando ele desiste eu me aproximo exigente.
Na terceira copla o zapateo que desafia o comprometimento, três vezes jurado. Nós escutamos com deleite o triunfo, Não era mais necessária a procura.
“Tú con fuego en la mirada
Tú me has robado el alma
No puedo vivir ”
O querer suspenso na derradeira copla alucina nossos sentidos. Em cada careo transborda o movimento do desejo, num momento frente a frente sentindo queimar teus olhos a poucos centímetros dos meus e depois de costas tu sentes os espinhos que, como a rosa, meu corpo traz. Mas, mesmo assim, segura nas tuas mãos minha cintura e quando anuncia o fim, aperta meu corpo contra o teu e sinto o ofegar ritmado do ventre. O calor do teu sangue gitano deixa a cicatriz, é obrigatório apaixonar-se.
Mesmo na recusa da fadiga separamo-nos. A negação do corpo em parar delineia o vício da alma. O desejo agora em mim habita e clama por satisfação. Eu atendo; torno a me apaixonar a cada noite, nunca satisfeita sempre acabo retornando.
“Te quiero,
Te quiero, tanto te quiero
Y tanto te quiero que
Que más de lo que te quiero
Ya no te puedo querer”