Passeio
Quando Tio Leras, guarda livros da Labuze e Cia, saiu da loja, permaneceu alguns instantes ofuscado pelo brilho intenso do sol que se punha. Trabalhando o dia inteiro sob a luz amarela do lampião a gás, nos fundos da loja, que dava para um pátio estreito e profundo como um poço. A pequena peça onde havia quarenta anos ele passava seus dias era tão escura que, mesmo no forte verão, raramente se podia dispensar de acender a luz das onze às três horas.
Ali estava sempre úmido e frio; e as emanações daquela espécie de fossa para onde se abria a janela entravam na peça sombria, enchendo-a de um cheiro de mofo e de um fedor de esgoto.
O Sr. Leras, havia quarenta anos, chegava todas as manhas às oito horas a essa prisão; e ali permanecia até às sete da noite, debruçado sobre seus livros, anotando com um afinco de empregado padrão. Nunca houvera uma reclamação do seu trabalho. Seu patrão confiava ao máximo nele. Apesar disso, guardar livros fora a única coisa que o Sr. Leras fez a vida toda. E neste dia, em particular, isto estava o incomodando.
Enquanto o sol ofuscava seus olhos, Sr. Leras caminhava em direção a sua casa pensando o quanto sua vida era sombria e monótona. Mas não sabia como mudar, pois trabalhar na Labuze e Cia era o que ele sabia fazer e só. Então algo diferente – em 40 anos – ocorreu. Enquanto passava pela ponte sobre o Rio Velho, viu um pequeno e magrelo menino na borda externa da ponte, pronto para se jogar ao rio. Sr. Leras correu, como nunca havia corrido em sua vida, e puxou o garoto pela blusa, derrubando os dois ao chão da ponte.
Alan era um menino de 15 anos e desde os 6 anos vivia sozinho nas ruas, já que seus pais o abandonaram para trabalhar em um navio espanhol. Por nove anos sua vida foi de miséria, mendigando comida e água. Alan viveu em lugares inóspitos: currais, lixões, porta de igrejas. Passou frio e fome enquanto olhava as outras crianças brincando alegres nas praças e que iam às escolas com livros nas mãos. Gostaria de ter estudado só para poder ver o que havia naquelas paginas que as pessoas liam com tanto afinco ou gosto.
Enquanto o sol ofuscava seus olhos, Alan pode ver aponte do Rio Velho e resolveu acabar com o seu sofrimento. Não faria falta a ninguém. Passou para a borda externa da ponte.
Sr. Leras e Alan olhavam-se, calados, sentados no chão da ponte. Ao mesmo tempo em que nada se entendia, os dois agradeciam pelo ocorrido silenciosamente. E aqui surgem duas vidas novas.
Sr. Leras continuou trabalhando de guarda livros o resto de sua vida, porém com um novo sentido. Seu tempo agora era dedicado ao seu emprego e à educação da sua família: Alan. Sr. Leras ensinou o menino a ler, e este o ajudava na Labuze e Cia. Alan, agora, tinha uma família e desbravava aquelas paginas que tanto sonhara em conhecer. Com certeza ele teria um futuro – seria dono de uma livraria e contaria historias a meninos de rua.
Sr. Leras e Alan mudaram suas vidas. Cada um a seu modo, cada um por seu motivo. Mas os dois sabiam perfeitamente que a vida deles nunca mais seria a mesma.
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Quando Tio Leras, guarda livros da Labuze e Cia, saiu da loja, permaneceu alguns instantes ofuscado pelo brilho intenso do sol que se punha. Trabalhando o dia inteiro sob a luz amarela do lampião a gás, nos fundos da loja, que dava para um pátio estreito e profundo como um poço. A pequena peça onde havia quarenta anos ele passava seus dias era tão escura que, mesmo no forte verão, raramente se podia dispensar de acender a luz das onze às três horas.
Ali estava sempre úmido e frio; e as emanações daquela espécie de fossa para onde se abria a janela entravam na peça sombria, enchendo-a de um cheiro de mofo e de um fedor de esgoto.
O Sr. Leras, havia quarenta anos, chegava todas as manhas às oito horas a essa prisão; e ali permanecia até às sete da noite, debruçado sobre seus livros, anotando com um afinco de empregado padrão. Nunca houvera uma reclamação do seu trabalho. Seu patrão confiava ao máximo nele. Apesar disso, guardar livros fora a única coisa que o Sr. Leras fez a vida toda. E neste dia, em particular, isto estava o incomodando.
Enquanto o sol púrpuro ofuscava seus olhos, Sr. Leras caminhava em direção a sua casa pensando o quanto sua vida era sombria e monótona. Mas não sabia como mudar, pois trabalhar na Labuze e Cia era o que ele sabia fazer e só. Então algo diferente – em 40 anos – ocorreu. Enquanto passava pela ponte sobre o cinzento Rio Velho, viu um pequeno e magrelo menino na borda externa da ponte, pronto para se jogar ao rio. Sr. Leras correu, como nunca havia corrido em sua vida, e puxou o garoto pela blusa vermelha, derrubando os dois ao chão da ponte.
Alan era um menino de 15 anos e desde os 6 anos vivia sozinho nas ruas, já que seus pais o abandonaram para trabalhar em um navio espanhol. Por nove anos sua vida foi de miséria, mendigando comida e água. Alan viveu em lugares inóspitos: currais, lixões, porta de igrejas. Passou frio e fome enquanto olhava as outras crianças brincando alegres nas verdes praças e que iam às escolas com livros nas mãos. Gostaria de ter estudado só para poder ver o que havia naquelas paginas que as pessoas liam com tanto afinco ou gosto.
Enquanto o sol ofuscava seus olhos, Alan pode ver aponte do Rio Velho e resolveu acabar com o seu sofrimento. Não faria falta a ninguém. Passou para a borda externa da ponte.
Sr. Leras e Alan olhavam-se, calados, sentados no chão da ponte. Ao mesmo tempo em que nada se entendia, os dois agradeciam pelo ocorrido silenciosamente. E aqui surgem duas vidas novas. Coloridas.
Sr. Leras continuou trabalhando de guarda livros o resto de sua vida, porém com um novo sentido. Seu tempo agora era dedicado ao seu emprego e à educação da sua família: Alan. Sr. Leras ensinou o menino a ler, e este o ajudava na Labuze e Cia. Alan, agora, tinha uma família e desbravava aquelas paginas que tanto sonhara em conhecer. Com certeza ele teria um futuro – seria dono de uma livraria e contaria historias a meninos de rua.
Sr. Leras e Alan mudaram suas vidas. Cada um a seu modo, cada um por seu motivo. Mas os dois sabiam perfeitamente que a vida deles nunca mais seria a mesma.