Quando tio Leras, guarda livros da Labuze e Cia, saiu da loja, permaneceu alguns instantes ofuscado pelo brilho do sol que se punha. Trabalhando o dia inteiro sob a luz amarela do lampião a gás, nos fundos da loja, que dava para um pátio estreito e profundo como um poço. A pequena peça onde havia quarenta anos ele passava seus dias era tão escura que, mesmo no forte do verão, raramente se podia dispensar de acender a luz das onze às três horas.
Ali estava sempre úmido e frio; e as emanações daquela espécie de fossa para onde se abria a janela entravam na peça sombria, enchendo-a de um cheiro de mofo e de um fedor de esgoto.
O senhor Leras, havia quarenta anos, chegava todas as manhãs às oito horas a essa prisão; e ali permanecia até as sete da noite, debruçado sobre seus livros, anotando com um afinco de empregado padrão, mesmo sendo o dono da loja.
Ele nunca se casara ou tivera filhos, achava que as pessoas os tinham pelo egoísmo de não quererem ficar sozinhas na velhice ou por um narcisismo tal, que sentiam a necessidade de se verem nos indivíduos jovens, que jamais voltarão a ser. Sua única paixão eram carros antigos, em particular o seu GT. Nos raros momentos em que não estava confinado na loja, dava ao seu objeto de desejo um melindroso polimento que o deixava espelhado por completo. Seu prazer maior era observar as expressões embasbacadas dos transeuntes ao se depararem com sua jóia rara nas ruelas ao redor do parque.
Todas as tardes de domingo, quando no parque se confraternizavam as famílias, as crianças brincavam, corriam, os jovens alternavam sorvidas nos gelados e beijos e os mais idosos se reuniam para um carteado, ele circundava o lugar três vezes e no terço primeiro do quarto circuito, estacionava sua preciosidade em uma vaga única, no alto do talude, de onde todos podiam admirá-la.
Dia desses, enquanto estacionava, notou uma senhora com duas crianças brincando ao seu redor. Intrigado com a familiaridade de suas feições, dirigiu-se a ela calmamente e numa sutil reverência levantou discretamente seu chapéu. A senhora devolveu um sorriso enigmático, de alguém que sabia a quem cumprimentava. Leras perguntou:
-Seus netos?
Ela acenou positivamente com a cabeça.
-Lindas crianças. Continuou ele.
-Poderiam ser suas. Ela respondeu com voz sentida.
O senhor Leras, instantaneamente atordoado, como se houvesse sido golpeado no encéfalo, acaba por reconhecer a digna senhora. Era Louise, que conhecera ainda menino, quando moravam na mesma viela do subúrbio parisiense. Estudaram juntos até o secundário, nessa época tiveram um curto namoro. A relação terminou quando Leras teve uma boa proposta de emprego no interior da França. Louise apaixonada, deixaria sua vida em Paris para seguir com seu amado, mas Leras achou por bem, antes de tornar o relacionamento mais sério, acumular algum capital, e assim, deixou Louise. Por algum tempo trocaram correspondências semanais, que passaram a ser mensais, até que a última foi postada há trinta anos. Esta última anunciava o noivado de Louise com o melhor amigo de Leras, era o então soldado Vitton. Não mais falaram, até aquele dia. Antes de se recuperar do impacto da revelação de Louise, com o braço semelhante ao de um doente de Parkinson, tornou a reverenciar a senhora, em despedida. Louise apenas abaixou os olhos também marejados.
Eu ajudava tio Leras na loja, no contra-turno da Universidade. Estou cursando Ciências Biológicas. Sou o único filho adotivo de sua irmã Ingrid, eles dois são toda minha família. Era uma quinta-feira quando o tio contou-me esta história, depois me informou que havia vendido a loja e que eu estava oficialmente demitido. Entregou-me alguns papéis, um pacote que deveria ser entregue somente à minha mãe, e as chaves da loja e do GT. Tremia muito quando me abraçou, fiquei ainda mais apreensivo, já que ele nunca fizera algo parecido antes. Fechei a loja porque suas mãos sequer conseguiam segurar alguma coisa. Já defronte à rua ficamos algum tempo em silêncio, ele apreciando o pôr-do-sol e eu assustado com toda a situação, não sabia o que diria pra minha mãe, afinal, dependíamos muito da minha escassa remuneração. Subitamente ele rompeu o silêncio, disse que o tanque do carro estava cheio, que o motor tinha 180 cavalos que sempre deveriam ser conduzidos respeitando o limite de velocidade e o deleite dos passantes. Sugeriu que eu levasse a Cristine, minha namorada, para um passeio. Então segurou minha cabeça com as duas mãos beijou minha testa na altura sagital mediana do seio frontal. Agradeci e fiquei parado enquanto ele descia a ladeira, quase dobrando a esquina acenou e eu respondi, ele esboçou um sorriso estranhamente feliz. Desde aquele dia não mais tornei a vê-lo.