quarta-feira, 19 de maio de 2010

Variações (Passeio, Halina Doria)

O guarda livros trajava invariavelmente cinza. Era em verdade uma pessoa neutra sem nuances. Não reclamava, jamais chegou a vermelhos intensos ou sequer ultrapassou sentimentos pálidos. Sem família, filhos ou parentes não possuía misturas, era dependente apenas de si.
Pessoa de descoradas ambições diziam uns, outros o colocavam sem verdes condições, mas constantemente o mundo o interpretava em azul. Alguns mais sombrios o cobriam de vivos vermelhos sangrentos. Diziam que Leras matara a noiva num ataque louco multissentimentalmente colorido com as mais discrepantes cores, ouviram que a branca inocência da pequena o irritara. Desde então a culpa o fez borrado e abarrotou-o de penumbras, assim trancou-se no negro buraco da Labuze. Teoremas infindáveis apareciam um após o outro, pintando a tela de Leras com sobreposições extravagantes. Mas o fato definitivo é que ser humano algum trocaria a fantasia pela realidade amarelada e macilenta.
Dia após dia e assim toda uma vida em marrons e beges se passava, de maneira que o guarda livros jamais estampava nas feições vibrantes verde, azul ou laranja, mostrava apenas o cinza. Agia catatonicamente em tons pastéis, apático a miscelânea da sociedade, desinteressado da paleta que o compunha. Apoderava-se de misturas alheias. Mesclas essas, pintadas com imaginação, traspostas por pincéis estranhos.
Atravessava com ânimo ardósia os anos. Entre livros fossem eles amarelados ou ofuscantes sentia-se beirando o ouro. Sem distinção, lia todas as escalas e paletas que passava pela loja. Não tinha preferência por azuis nobres, púrpuras enganosos ou grenás de batalha. Sentia a todos, cada um, em uma parte de si. Era compreensivo também, nunca ousou julgar as composições, elas sempre têm ou claros sublimes ou razões obscuras. Ademais, elas tinham vida.
Todavia, Leras sustentava essas escalas esquizofrênicas desde muito cedo, antes mesmo de trabalhar na Labuze e Cia. Não que tivesse passado por situações ocre e tintos insuperáveis nas relações humanas. Roseava profundamente a todos, porém não se sentia rosa igual perante a humanidade. Não obstante lembrava-se dos tempos sépia que teve, sem ter verdes posses não dispunha de muitos tons e como sempre foi de constituição embaçada não era preferido nas brincadeiras comuns. Nessa fase, doutrinou-se na arte da fantasia e coloria desenfreadamente histórias várias.
Ainda que sem tomar pleno conhecimento ele organizava mentalmente de claros a escuros, por dégradé ou qualquer lógica possível todas as criações. Cresceu metódico, não suportava subjetividades cáqui, tijolo ou mostarda, daí a disposição e vocação inerentes ao preto e branco que atualmente desenvolvia. O guarda livros sempre seguia as normas, não deixava borrões, nem que esses fossem puro marfim, e do azul celeste ao meia noite determinou para si uma única lei, a não realidade. Vivendo rubores celestes e esfumaçadas inocências nos fundos fosco da Labuze, afastado da negra pupila de todos os humanos era a maneira dele gozar do arco íris que lhe foi dado.
Nesse espectro brilhante, num furta cor para sempre inexplicável, dirigiu-se a uma conhecida casa que aceitava de fuligens a bronze e amarelentos sem perguntas. Delirante, fora do cinza habitual sem que soubesse o porquê, mas com plena claridade dos carmins que o rodeavam. Flutuava, em um lugar de rostos tão brancos e tão escarlates de discrepantes combinações e de indecorosa música. Ninguém saberá como o fulgor dourado e vermelho dignavam-se a pintar-se ali também.
Foi conduzido a um aposento vibrante, repleto de mau gosto. Ele entrava limoso tateando o batente da porta, sem ímpetos fúcsia para voltar atrás se sentou esverdeado na poltrona diametralmente oposta à cama. Fechou os olhos azuis, e ao redescobri-se falou de púrpuras e urucum. Pronunciava fugaz num tom marmóreo, atropelava-se e truncava ajustes. Nada fazia sentido. Todo marrom esverdeado já não era mais aceitável, mesmo assim ele continuava a esverdear-se obscuro.
A mulher terracota desnuda a sua frente. Aquele odor de biliosos trigueiros, aglomeração de carmesins, o embaralho dos tons e meandros de cinzas iguais ao dele. Estavam todos irremediavelmente dissolvidos entre si; misturavam-se e corrompiam o turquesa puro do mundo. Pilhas de sentimentos nas entranhas de Leras. Ele sentia-se a ponto de rebentar.
Acabou por desfalecer violeta sobre a poltrona. Por alguns instantes figurou em um retrato engraçado. O corpo inerte, de pêssego borrado, sem passado nem histórias, e o vermelho da poltrona velha com adornos barrocos de um dourado descascado, tão descomposta quanto o funcionário da Labuze e Cia. A cena carregava algo de um magenta escuro, porém carregado de verde limão, tinha uma significação que pairava além do entendimento das mulheres que acabavam de chegar.
Acordou febril pouco mais rubro que o costumeiro meio tom habitual, com cinco mulheres rendadas de escarlate olhando fixamente para seu semblante, mas permaneceu neutro. Seus olhos abertos não perderam a profundidade azul, mas esbranquiçavam e nada significavam. Pouco entendia do que havia acontecido. Tudo era escuro. Sentiu que toda a força dos músculos havia se esvaído. Não conseguia articular mais palavra alguma, via o vermelho da poltrona tornar-se salmão.
Os cinco corpos borrados da noite trajados de bordôs e tintos, cansadas, agora velavam num violeta profundo o moribundo, absortas na pincelada final. O findar daquele estranho era tão certo como o mais frio orvalho. Leras sempre sustentou muito respeito às mulheres, considerava-as leves como lavandas e malvas, a algumas permitia o reluzir do ouro. Assim, ao sentir a opressão negra da solidão que os primeiros vestígios do fim trazem, não estampou vermelhos raivosos ou decepções demasiado púrpuras. A morte é sempre abrupta em algum sentido. Soltou um longo suspiro, cada vez mais enevoado virou-se e numa nobreza azulíssima descontinuou-se para o mundo.